MARCOS DE SERTÂNIA: PARA ALÉM DO SERTÃO

Postado por Kelly Arruda em

 

A tradição familiar de viver do artesanato produzindo utensílios domésticos de madeira também chegou a Marcos Sertânia, que carrega em seu nome a cidade que cresceu, foi cenário e principal inspiração de suas obras, carregadas de simbolismos.

Ainda muito jovem, aos 12 anos de idade, Marcos saía do sítio onde morava, na zona rural de Sertânia, cidade que fica a 315 km do Recife para ir até o centro, na casa onde o avô e mais quatro tios moravam e produziam as peças que sustentavam toda a família.
Sempre curioso, mexia nas ferramentas e brincava com a madeira na tentativa de fazer alguma coisa. E foi assim que começou seu envolvimento com a arte. Foi assim que Marcos chegou a um estilo propriamente seu, influenciado pelas histórias de resistência do povo sertanejo.

Mostrar o cotidiano do Sertão, como vivem as pessoas de lá e as dificuldades de
pertencer a uma região castigada pela seca foram os fatos que guiaram toda a criação de Marcos. A obra Vidas Secas (1938), de Graciliano Ramos se faz presente como a principal referência do artesão. A família de retirantes nas figuras do pai, da mãe com a criança no colo acompanhados de um cachorro, amigo fiel dos seres humanos foram, em conjunto, as primeiras peças criadas por Marcos. “... como sobreviver no Sertão, como lidar com os animais em uma terra de pouca chuva, pouca agua, como sobrevive o povo. A mulher que carrega água na cabeça, o homem que alimenta o gado. Eu sempre tento mostrar isso, retratar as pessoas do sertão, a sobrevivência e a resistência do povo daqui”, explica.

Em Vidas Secas, além toda a história da família de retirantes que luta contra as adversidades da região, Baleia, a cachorra da família, talvez seja a personagem mais lembrada de quem já leu e se comoveu com o drama. Na história de Marcos, o animal também ganhou maior destaque. Muitas pessoas solicitavam a produção apenas dos cachorros. Dessa maneira, o artista encontrou sua especialidade.

Com patas alongadas e finas, alguns modelos se alternam entre tons mais claros e escuros e que conseguem, com facilidade, ser expressivos e característicos, quando nos referimos ao Sertão brasileiro. Com quase 12 pessoas trabalhando com Marcos, o processo de produção foi voltado exclusivamente para a elaboração dos cachorros. Foi preciso “um esquema especial” para dar conta de tantos pedidos. “A gente conseguiu montar uma linha de produção para acelerar mais o processo de entrega. Cada uma fica responsável por fazer uma parte dessa produção. Um faz a pata do cachorro, outro faz outra parte do corpo do cão, outro faz a orelha até chegar ao final e a peça ficar pronta.
Temos muitas encomendas para entregar e consegui juntar varias pessoas para fazer. É quase como se fosse uma fábrica de artesanato, só que aqui é artesanato puro. A gente trabalha com canivete, tira da madeira bruta. Cada um vai fazendo o seu papel”, conta. 

Com tanto trabalho e com um simbolismo extremamente forte nas obras de Marcos, o reconhecimento é, claro, muito importante. Suas obras já apareceram em novelas de grande repercussão, outros Estados do país se dedicam a vender e expor o seu trabalho, além das demandas para fora do Brasil. No município em que vive Marcos também faz escola. Pelo menos dez famílias se interessaram em aprender um pouco de suas habilidades e, hoje, também se sustentam fazendo arte e lucram seguindo os passos do artista.

“É muito simbólico isso para a gente. Moramos no Sertão, lugar associado à seca, a fome e a gente consegue transformar isso em obra de arte e sobreviver dessa arte. Traz uma grande satisfação e, por outro lado, movimenta a economia. É gratificante porque a gente sabe que o nosso trabalho tem uma razão de ser e contribui para o espaço que ele está inserido. Isso traz uma alegria enorme. A gente consegue transformar essa visão de que o lugar é triste, é seco, é inóspito em uma realidade mais alegre, de futuro”, completa o artesão que, há mais de 30 anos, dedica-se à arte de fazer o Sertão cada vez mais valorizado e bonito. 

Você pode adquirir as peças de Marcos de Sertânia aqui no site ou na loja física, que fica na Rua Bispo Coutinho, 814, Alto da Sé, Olinda/PE.


3 Comentários

  • Parabéns pela sua sensibilidade. Terei, em breve a alegria de conviver com duas Baleias (suas) em minha casa!! Lindas demais!

    Daniela em

  • trabalho maravilhoso!parabéns

    Jaqueline Gaspar de Lima em

  • Acho lindo seus cães!!

    Fabricia em


Deixe um comentário

Os comentários estão sujeitos a aprovação.